quinta-feira, 27 de julho de 2017

Aikido e a filosofia: estoicismo? ou Mistificando o aikido

Fui convidado para ministrar um workshop na faculdade Estácio/CEUT em Teresina(Piauí/Brasil). O evento ainda não aconteceu, será no dia 2/9/2017, caso nada dê errado. Dentre os temas solicitados me foi pedido para falar sobre a filosofia do aikidô.

Há muitos anos que discordo enfaticamente desse tipo de afirmação: quero treinar a arte tal por causa da sua filosofia. Quer filosofia, matricule-se em uma universidade. No entanto, a partir da solicitação do organizador do workshop procurei pesquisar um pouco mais sobre o assunto(e ainda estou pesquisando) para melhor me preparar para responder qualquer pergunta sobre o assunto. E qual não foi a minha surpresa ao conhecer o estoicismo. Não, não mudei de ideia. Pelo menos não tanto assim. Mas percebi que pode haver sim uma relação de colaboração entre as artes marciais e a filosofia, pelo menos com esta corrente filosófica.

Procurei então conhecer mais um pouco sobre isso e busquei textos na internet. Uma coisa interessante que encontrei foi neste link, que abaixo traduzo livremente:

"Como o aikido pode ajudar a me conhecer melhor e viver minha vida?

John Hrits(Treinado em Yoshokai Aikido por 5 anos)

Aikido é uma arte marcial, mas muitos praticantes pensam nele como uma forma de estudar Budo. Budo está num grupo de modelos de ética pessoal como o estoicismo que tentam juntar as virtudes da autoconfiança e o autodomínio. Um bom livro sobre os elemento do Budo escrito por ocidentais é "Living the Martial Way"(https://www.amazon.com/Living-Martial-Way-Manual-Warrior/dp/0942637763)

Kris Rosvold(Aikidoca, chef, ...)

Aikido como ensinado no Japão é intimamente interligado com a filosofia e uma forma de estoicismo.(Muito como o Tai Chi é).

A arte é sobre o corpo e a mente, e a conexão entre os dois. Para mim as lições mais importantes não vieram da parte marcial física, mas da parte dos jogos que nossas mentes e corpos podem aplicar sobre nós se não estivermos atentos.

Isso também nos ensina como usar as ferramentas que cada um de nós tem para unificar a mente e o corpo em um só propósito.

Para mim a maior lição foi a de me deslocar de forma que a força do atacante passasse ao largo do meu corpo. Aprendi isso no nível físico muito antes do que eu consegui no nível emocional e mental"

Além disso, li este texto em inglês "Stoicism and Martial Arts: More Common Than You Think", que em breve traduzirei, caso eles me autorizem. Mas por enquanto deixo vocês com alguns dos pensamentos estoicos encontrados no texto para reflexão e livremente traduzidas por mim.

"Não é o que acontece à você, mas como você reage a isso" (Epiteto)

"Previna a si mesmo ao amanhecer: vou encontrar um intrometido, um mal agradecido, um insolente, um astucioso, um invejoso, um avaro" (Marco Aurélio)

Afinal não treinamos com o objetivo de nos tornarmos melhor preparados para as situações da vida, seja em nível físico ou não? Do mesmo texto acima citado, retiro os pontos que ele destacou como paralelos entre a filosofia e as artes marciais:

- Dificuldades físicas: nas artes marciais somos treinados em um nível físico que forje nossa autoconfiança e autoestima, pois pode parecer que nunca atinjamos aquele grau pretendido de destreza. O estoicos também são perseverantes na busca de ultrapassar obstáculos;

- Disciplina: no treino aprendemos que só podemos aprender através do nosso próprio esforço. No estoicismo a virtude e ações positivas suas para você mesmo e para os outros são consideradas como mais importantes. Como disse O'Sensei: "O progresso vem para aqueles que treinam e treinam";

- Visualização: visualize-se executando e finalizando um ikyo perfeitamente e totalmente errado. No estoicismo isso é largamente utilizado, mas visualizando todas as possibilidades negativas que podem acontecer sobre determinado fato. Com a visualização você se prepara para qualquer situação;

- Paciência: desnecessário dizer a sua aplicação nos treinos. Só através de muita prática você atingirá o nível desejado. Os estoicos aprendem a se focar naquilo que está à sua frente, não no que existe num futuro distante;

- Esperar pelo pior: nas artes marciais você é treinado a perceber a intenção do parceiro e agir da forma adequada. Você se prepara para o pior ao mesmo tempo que aprende a evitá-lo. No estoicismo você se prepara para lidar com os obstáculos que a vida irá te impôr e a ultrapassá-los(Visualização). Quando você antecipa o pior, você toma ciência de que existem coisas que estão fora do seu controle e se prepara adequadamente para lidar com elas;

- Respeito: respeito próprio. Sim, aprendemos a respeitar nosso professor, nossos colegas, o mundo, mas antes de tudo desenvolvemos um respeito próprio. Da mesma forma que no estoicismo o respeito próprio está acima do respeito pelos outros, pois sem ele você nada será;

- Controlar suas emoções: nos dois casos não podemos permitir que nossas emoções nos controlem, ou iremos apanhar feio do nosso adversário e da vida;

Por enquanto fico nisso.

Abraços.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Por que treinar aikidô?

Me recordo do dia que comecei, não da data exata(foi em outubro de 1992), mas dos acontecimentos. Tinha 22 anos de idade. A matrícula fiz na hora do almoço(trabalhava ali perto) para a noite já começar, de quimono e tudo.

Para fazer a inscrição era necessário responder uma pergunta: qual o motivo da sua vontade em treinar aikidô?. Não preenchi. E não o fiz por que não sabia a resposta. Nem mesmo os filmes de Seagal da época eram motivo, como tantos informaram. Até mesmo por que nunca havia associado Seagal ao aikidô. Aliás, não sabia absolutamente nada do que era o aikidô. Portanto, se você está lendo esse texto procurando uma resposta objetiva para que você comece a treinar, leia até o final, é curtinho.

Cumprimentei o professor e me apresentei antes da aula. Os alunos mais antigos me orientaram nos passos iniciais de entrada no tatame. Perdido, tentei seguir a aula. Irimi nage e shiho nage. A dica de um senpai sobre o fato do nage sempre ter que estar confortável e o uke na situação oposta. Dica  que guardo e tento praticar até hoje. Foi interesse instantâneo. O desequilíbrio sem usar força bruta, a movimentação, o uso do corpo, tudo me interessou profundamente. A falta de competições e o fato de treinar para mim, sem precisar provar nada a ninguém foram a "cereja do bolo".

Os dias de treinos se passavam, se transformaram em meses e alguns anos. Até que durante um treino meu braço foi quebrado. Falta de perícia minha e também do nage. Tudo indicaria que ali acabaria o amor com a arte. Puro engano! Gesso, fisioterapia e logo em seguida a volta aos tatames, de forma definitiva. Surpresa para muitos, talvez alguns até quisessem que ali tivesse sido meu fim. Não foi. Tiveram que me engolir. E não foi por que uma arte marcial também serve para isso. Superar seus limites e obstáculos. Devidamente superados.

Alguns anos depois disso meu professor resolve parar de dar aula. Assumiu em seu lugar um aluno faixa marrom(1º kyu). Ficamos no dojo basicamente apenas eu e ele. Todos os outros alunos migraram para outro dojo, aonde o professor, também 1º kyu, atraía mais a atenção. Dessa vez, nova e maior superação, a falta de uma orientação sólida. Aí aprendi que o aikidô se faz também fora do tatame. E foi nesse instante que percebi que realmente não havia mais saída para mim, a arte fazia parte da minha vida.

Mudei de grupo, de professor, de cidade, de forma de treinar. Evoluí, aprendi. Cheguei à faixa preta(16 anos para isso) com um aikidô sólido. Mais 5 anos e atingi o segundo dan. Um total de 21 anos até então. Muitos nesse período já haviam chegado ao quarto ou quinto dan(nem tão habilidosos), outros pararam(muitos muito habilidosos). Nesse período tive a oportunidade de fundar o grupo Aikidô Piauí(2013), de participar de diversos seminários, inclusive do doshu Moriteru Ueshiba, e de treinar fora do Brasil. E ano que vem(2018), se tudo der certo, a visita ao Japão.

Sou aluno e professor, uma experiência completa, que melhora meu aikidô a cada dia. Que me faz ter certeza do caminho certo que tomei. Hoje, 25 anos depois(2017), me orgulho de cada passo que dei dentro da arte.

Mas, enfim, por que treinar aikidô? Para mim porquê me permitiu viver isso tudo, me permitiu ser uma pessoa do mundo, me permitiu conhecer como as outras pessoas são, me deu mais disposição para enfrentar as dificuldades, me deu mais confiança diante dos desafios, me deu o que sou hoje, uma pessoa bem melhor que há 25 anos atrás.

Não foi o bastante para você? Tudo bem! Tenho certeza que você ainda encontrará o seu "aikidô".

De toda forma acho que não custa nada tentar. Venha nos fazer uma visita, uma aula experimental. Aguardamos você. Um abraço!

terça-feira, 6 de junho de 2017

Qual o tamanho do aikidô no Brasil?

Sabemos que o aikidô se tornou uma das artes marciais mais populares do mundo. Na França é praticado por mais de 2 mil pessoas. Mas, e no Brasil? Como é o cenário do aikidô em nossa terra? Sempre tive curiosidade em saber isso e fiz um grande levantamento sobre o assunto.

Antes de tudo é importante informar que não utilizei qualquer metodologia científica para elaborar este estudo. Não trata-se de um trabalho acadêmico, mas tão somente uma curiosidade. Todos os dados foram retirados dos grupos que possuem sites na internet, e por isso não necessariamente refletem a completa realidade, uma vez que frequentemente estão desatualizados ou não refletem a total realidade dos dojos a eles filiados. Além disso há grupos que simplesmente não possuem qualquer referência pública.

O levantamento tratou de mapear exclusivamente dojos filiados à Aikikai. Num futuro pretendo colocar as outras entidades de aikido presentes no Brasil.

Todo o levantamento foi resumido numa planilha que pode ser acessada  clicando aqui. Os dados são de uso livre, solicito apenas que a fonte seja citada e me seja informado o uso deles.

Estes dados refletem até o dia 6/6/2017 e naturalmente ao longo do tempo já não serão tão fiéis à realidade. Uma revisão poderá ser feita ano que vem.

Algumas conclusões que tirei:

- Há hoje 14 entidades ligadas à Aikikai em atividade no país. Estas entidades podem ser nacionais ou internacionais ou apenas a representação(formal ou não) de algum shihan internacional. As entidades são:

  . Associação de Aikido do Norte da Carolina(EUA) - Robert Nadeau shihan
  . Associação Pesquisa de Aikido(Brasil) - Keizen Ono shihan
  . Brazil Aikikai(Brasil) - Wagner Bull shihan
  . Círculo de Aikido(Brasil) - Luis Gentil sensei
  . Federação Brasileira de Aikido(Brasil) - Severino Sales sensei
  . Federação Mineira de Aikido(Brasil) - Claude Walla sensei
  . Federação Paulista de Aikido(Brasil) - Makoto Nishida shihan
  . Instituto Maruyama de Aikido(Brasil) - Robert Maruyama sensei
  . Kohirajuku Kanie Dojo(Japão) - Yoshikazu Yamada sensei
  . Makoto Aikido Kyokai(EUA) - Larry Reinossa sensei
  . Sansuikai International(EUA) - Yoshimitsu Yamada shihan
  . Shikanai shihan(dojos ligados à Ichitami Shikanai shihan)(Brasil) - Ichitami Shikanai shihan
  . Tissier shihan(dojos ligados à Christian Tissier shihan)(França) - Christian Tissier shihan

- Há um total de pelo menos 358 dojos de aikido espalhados pelo Brasil
- Apenas Acre e Tocantins não contam com o aikidô
- O ranking das entidades considerando todo o país em quantidade de representantes ficou assim:

   1º) União Sul-americana de Aikido com 74 dojos
   2º) Brazil Aikikai com 73 dojos
   3º) Sansuikai International com 64 dojos
   4º) Federação Paulista de Aikido com 38 dojos
   5º) Associação Pesquisa de Aikido e Shikanai shihan com 29 dojos cada
   6º) Instituto Maruyama de Aikido com 18 dojos
   7º) Federação Brasileira de Aikido com 17 dojos
   8º) Federação Mineira de Aikido com 12 dojos
   9º) Círculo de Aikido com 7 dojos
 10º) Kohirajuku Kanie Dojo com 6 dojos
 11º) Tissier shihan com 3 dojos
 12º)  Makoto Aikido Kyokai com 2 dojos
 13º) Associação de Aikido do Norte da California

- O ranking de dojos espalhados por regiões  do Brasil ficou assim:

   1º) Sudeste com 231 dojos
   2º) Nordeste com 61 dojos
   3º) Sul com 53 dojos
   4º) Centro-oeste com 20 dojos
   5º) Norte com 8 dojos

- O ranking por estados ficou asim:

  1º) São Paulo com 122 dojos
  2º) Rio de Janeiro com 57 dojos
  3º) Minas Gerais com 38 dojos
  4º) Bahia com 25 dojos
  5º) Santa Catarina com 23 dojos
  6º) Paraná com 17 dojos
  7º) Espírito Santo com 14 dojos
  8º) Rio Grande do Sul com 13 dojos
  9º) Distrito federal com 12 dojos
10º) Pernambuco com 9 dojos
11º) Sergipe com 8 dojos
12º) Ceará com 7 dojos
13º) Goiás e Rio Grande do Norte com 5 dojos cada
14º) Alagoas e Pará com 3 dojos cada
15º) Maranhão, Mato Grosso do Sul e Rondônia com 2 dojos cada
16º) Amapá, Amazonas. Mato Grosso, Paraíba, Piauí e Roraima com 1 dojo cada
17º) Acre e Tocantins sem nenhum dojo

Todos esse valores são extremamente dinâmicos e podem variar diariamente.

Bom, os dados aí estão. Divirta-se extraindo deles o que mais te interessar. Em breve serão convertidos em um software com banco de dados.

Todas estas informações e outras poderão ser acessadas em "Mapeamento do aikidô brasileiro" no nosso menu acima.

Abraços.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Nova enciclopédia do aikido brasileiro: um trabalho em progresso

Há muitos anos tento elaborar este material, mas a verdade é que reunir as informações não é nada fácil. Mesmo com a internet, muitos grupos e pessoas ainda fazem questão de se manterem anônimas.

Construir esta enciclopédia é um trabalho muito difícil. Durante um breve tempo tivemos na internet a enciclopédia do Aikido Journal e, no Brasil, a Aikipedia. Ambas saíram do ar. Mas hoje comecei a organizar as ideias e a buscar os dados dos grupos, pessoas, etc. A versão 2017 possivelmente só será liberada ao final do ano e mesmo assim incompleta, devido ao forte dinamismo da cena aikidoca brasileira atual. Mas sairá.

Para quem não sabe, aqui no blog lanço anualmente o "Ranking Brasil"(lista das pessoas a partir do 4º dan no aikido aikikai brasileiro) e justamente por estar acostumado com esse esforço. caí dentro desse novo desafio.

Aguardem!

segunda-feira, 27 de março de 2017

E agora?

Recentemente colegas aikidocas enviaram estes vídeos em grupos do WhatsApp que comprovam, irrefutavelmente, que treinar aikido é total bobagem e comprovam que  só BJJ e o MMA salvam.



Bom, agora só me resta estudar os vídeos daqueles que foram grandes mestres





#sobudspencersalva #mussummelhorquechucknorris

sexta-feira, 10 de março de 2017

Stanley Pranin - 24/07/1945 ~07/03/2017

Faleceu na última terça-feira o sensei e pesquisador Stanley Pranin. Pranin era um dos maiores, senão o maior e mais importante, pesquisador do aikidô em todos os seus aspectos. Ele criou e manteve durante mais de 30 anos o Aikido Journal, primeiro como um jornal em papel e depois migrado para a internet. Viveu no Japão onde estudou com os melhores, principalmente com Morihiro Saito sensei,

Recentemente ele havia sido diagnosticado com um câncer de estômago em estado avançado. Inclusive foi criada uma campanha na internet para obter o dinheiro necessário para o tratamento.

Fica o seu legado. Sem dúvida criei este blog(e o antigo aikidobr) fortemente influenciado por ele.

O meu agradecimento e condolências à família e a todos que sentirão sua falta!

Morihiro Saito, Stanley Pranin e Koichi Tohei

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Kagami Biraki 2017

Este ano não aconteceu a cerimônia, não sei ao certo por que, mas de toda forma a Aikikai liberou a lista com as promoções. O que nos interessa são aqueles a partir do 5º dan. Então vamos aos brasileiros contemplados este ano.

7º dan

- Wagner Bull - São Paulo

6º dan

- Alberto Ferreira - Rio de Janeiro
- Carlos Alberto Silva Santos - Bahia
- José Magal - Atualmente em Israel
- Nelson Mitsuo Takayanagi - Distrito Federal
- Rodolfo Luis Reolon - Paraná
- Vagner Seiyu Tome - São Paulo

5º dan

- Carlos Eduardo Rodriguez Bueno - São Paulo
- Eidi Arai - São Paulo
- Emilia Cardoso Martinez - São Paulo
- Ernesto Chapiro Martini - São Paulo
- Ioshico Fushimi Hannari - São Paulo
- Italo Domingos Fioravanti - Paraná
- Kim Ruschel - São Paulo
- Paulo Ivan Volochyn

Parabéns a todos!