sexta-feira, 28 de junho de 2019

Aikidoka ou aikidoísta?

Há muito vejo as pessoas discutindo a forma correta de chamar o praticante de aikidô(além de pelo seu nome, é claro 😑). Nesse texto exploro rapidamente como deve ser falado.

A palavra aikidoka nitidamente vem da escrita em romaji(forma de expressar as palavras do idioma japonês em nosso alfabeto) da palavra original em kanji 合気道家. Essa palavra é composta por 3 kanji, sendo o primeiro lido como "ai", a segunda como "ki", a terceira como "dô"(ou dō onde o ō é um o prolongado "oo" que em português ficaria dou) e, a última e a parte mais importante nesta discussão, como "ka". Os kanjis geralmente possuem mais de uma leitura, a chinesa chamada de onyomi e a japonesa chamada de kunyomi. A leitura chinesa  normalmente é adotada quando o kanji está acompanhado de outros kanji. No caso do kanji em questão(家) ele está acompanhado de outros e por isso adota a leitura chinesa, que seria "ka" ou "ke". Assim sendo, falando-se o nome do praticante da arte em japonês ficaria aikidōka ou aikidōke. Este último nunca ouvi. No entanto alguns resolveram traduzir apenas o último kanji que seria profissional ou expert(também pode ser traduzido como casa, família ou performer de acordo com o contexto de uso). Em português usamos normalmente o prefixo "ista" para designar profissionais ou especialistas em uma área, tal como em dentista. Por isso ficaria aikidoista. No entanto, não achei nenhuma definição formal do termo em nenhum dicionário da língua portuguesa que consultei. Também deve-se levar em consideração que em português aikido ficaria aiquidô(segundo o dicionário Priberam).

Eu continuarei a usar a "pronúncia" em japonês, ou seja, aikidoka, que me parece mais correta. No entanto, como trata-se de mais um estrangeirismo em nosso idioma, fica por conta do freguês, não havendo nem um certo e nem um errado. Apesar disso, continuem treinando que é muito mais importante.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Falecimento de Severino Sales sensei

Com pesar informo que chegou ao meu conhecimento que Severino Sales sensei faleceu ontem, 27/05/2019. Deixo aqui meus sentimentos para a família, amigos e alunos.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Aikikai Kagami Biraki 2019

Foi realizada no dia 13/01/2019 a cerimônia do Kagami Biraki na sede da Fundação Aikikai em Tóquio, no Japão. Como é tradição, nesta mesma data é liberada a lista de sugestões de promoção acima do 5º dan. Abaixo os brasileiros deste ano:

7º dan

.  Fumie Nishida - São Paulo
. Paulo Naoki Nakamumra - São Paulo

6º dan

. Fernando Komatsu - Santa Catarina
. Yuriko Yoshioka - Paraná

5º dan

. Silvio Meirelles - Rio de Janeiro
. Carlos Henrique Dantas - Pernambuco
. Edison do Nascimento - Distrito Federal
. Francisco JOsé Pereira Carvalho - São Paulo
. Giovany Gomes Capistrano - Ceará
. Lauro Henrique Lobo Bandeira - Ceará
. Wellington de Souza - Santa Catarina
. Zilmor Lima - Santa Catarina

Nossos parabéns a todos!

Como sempre, caso falte alguém, basta entrar em contato. Também está atualizada a nossa planilha com todos os graduados acima do 5º dan. Clique aqui.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Filosofando o aikidô

Uma das poucas obras que conheço que trate do tema filosofia e artes marciais é, pasmem, "Martial arts and philosophy: beating and nothingness"(Graham Priest e Damon Young). Achei muito bom, principalmente para curiosos e iniciantes em filosofia como eu.

O livro contém a opinião e experiências de diversos artistas marciais que tenham formação em filosofia. O capítulo 11 "Iaido, Aikido and the Other" trata de... aikidô. Nele a autora, Tamara Kohn, faz um paralelo entre a prática do aikidô e o pensamento de um Emannuel Lévinas. Lévinas foi um filósofo contemporâneo que viveu na Europa das guerras mundiais. Dentre diversos pontos, ele tratava da alteridade, da preocupação com o Outro. Outro com letra maiúscula mesmo, daí no título do capítulo a autora usar "Other" ao invés de "other". Morihei Ueshiba e Lévinas foram contemporâneos, viveram em um sociedade com profundas transformações e afetada por duas grandes guerras mundiais. Apesar de nunca terem se conhecido e tampouco O'Sensei poder ser considerado um filósofo, pensaram de forma igual. No livro a autora escreve algo que, para mim, sintetiza bem o aikidô e a forma de pensar de ambos e que transcrevo abaixo em uma tradução livre:

"O filósofo do século 20, Emannuel Lévinas, tinha um grande interesse em ética e as responsabilidades que cada indivíduo tem com as outras pessoas em seu mundo. Quando os "Eu"s e os outros se encontram(no treino, no trabalho, em casa, na rua) a qualquer momento haverá o que Lévinas chama de "mutualidade desigual"(novamente lembro que trata-se de uma tradução livre) no encontro. Ele escreveu, "Eu sou responsável pelo Outro sem esperar por reciprocidade, ainda que eu morra por isso. Reciprocidade é uma questão dele."(Totality and infinity, Martinus Nijhoff, 1961, pag. 98). Se isso for verdade, então a promessa de reciprocidade NÃO é o que motiva a você e a mim a agir de forma responsável e com cuidado, mesmo que isso seja parte da equação como um todo - apenas estar com os outros é o que faz isto.

Então se você pensar sobre o encontro em um tatame na prática do aikidô, esta responsabilidade que você tem com o Outro acontece antes do toque - antes da energia do ataque do Outro  fazer seu corpo se mover em resposta."

Em termos mais simples, seja o que você quer que os outros sejam. Isso  não é o bastante, é bobagem? Então lembre-se daquele ditado: vento que venta lá, venta cá. Cuide do outro se quiser ser cuidado. Bateu? Vai levar! Mas sabendo que isso não significa, de forma nenhuma, em fazer uma prática fraca, falsa. É preciso treinar firme, polir o corpo e o espírito, mas com respeito aos limites de cada um, pelo que aquela pessoa é e pelo que ela representa.

Considero que o aikidô não tem filosofia. O aikidô é o resultado dos pensamentos de um ser humano diante do contexto em que vivia. Lévinas e outros filósofos escreviam livros, davam palestras para demonstrar seus pensamentos. O'Sensei criou o aikidô para isso.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Aikikai Kagami Biraki 2018

Foi liberada a lista de promoções da Aikikai deste ano. Bastante nomes brasileiros. Como faço todo ano, segue a lista:

7° dan
- Carlos Eduardo Dutra
- Ricardo Leite
- Severino Sales

6° dan
- Carlos Alberto Grisalt
- Ivan Okuyama
- Marcus Caires
- Matias de Oliveira
- Ricardo Kimati
- Valdecir Fornazier

5° dan
- Alexandre Salim
- Constantino Delis
- Eduardo Pereira Marquez
- Elza Mieko Issy Ozawa
- Gilberto Machado Marecos
- Isabel Rocha de Cunto Lemos
- Laurentino Duodécimo
- Luc Leoni
- Ney Tamotsu Kubo
- Ricardo Kenji Miyajima
- Walter Nunez Martinez

Parabéns a todos. Caso falte alguém, por favor informe nos comentários abaixo.

A lista original pode ser vista neste link



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Por que o aikido atrai tão pouco as mulheres?

Claramente a presença masculina domina o mundo das artes marciais e, claro, não poderia ser diferente em nossa arte. Poucos são os nomes femininos em destaque no aikido nacional e internacional.

Apenas muito recentemente surgiram nomes como os de Micheline Tissier, Yoko Okamoto e Nadia Korichi. Mais antigas temos Stephanie Yap e Pat Hendricks. No Brasil se destacam Fumie Nishida e Marai Luiza Serzedello como mais graduadas, ambas 6º dan atualmente. Na verdade a coisa parece ser tão séria que no último congresso da IAF(2016 em Takasaki no Japão) houve uma rodada de discussões dedicadas a isso.

Poderíamos apelar para a cultura brasileira, aonde tipicamente as mulheres não se interessam por atividades de combate. Elas sempre tendem a escolher atividades mais lúdicas ou criativas como dança ou artes plásticas. Outras trilham o caminho das artes marciais geralmente para extravasar a agressividade, competir ou como ginástica. Algumas por terem sido "forçadas", como Micheline Tissier(veja entrevista dela no Youtube).

Mas como atrair mais praticantes? Talvez mostrando a elas o quão benéfico, porém demandante, é a prática do aikidô. Exigirá muita dedicação, mas trará diversos benefícios. Um grande exemplo disso li recentemente no livro “Martial Arts and Philosophy: Beating and Nothingness”(Graham Priest, Damon A. Young), aonde a autora de um dos textos, Patricia Petersen, discorre sobre como o karate a ajudou a trilhar e consolidar a sua posição feminista(capítulo 9 - Grrrrl in a Gi). E para isso ela explica como a prática diligente do karatê a transformou de uma pessoa com tendências a aceitar a submissão e até mesmo relacionamentos relativamente abusivos em alguém segura de si, tanto no aspecto físico quanto psicológico. É um relato muito interessante, ainda que assuma um tom um pouco autoconfiante demais. Ali ela também divulga números de uma pesquisa feita na Austrália que demonstra o quanto as mulheres ainda se tornam vítimas. Claro que o texto se aplica a qualquer arte marcial e se chegasse a mais mulheres no Brasil poderíamos ter uma mudança neste cenário. No cenário do número de praticantes e, principalmente, no número de casos de violência contra elas, que poderia diminuir muito. Não somente por aprenderem a se defender fisicamente, mas principalmente a evitarem a situações de risco. Gosto de dizer que antes de bater é mais importante não apanhar. A prevenção é sempre  melhor negócio. Abaixo segue uma tradução livre de um pequeno trecho do texto:


“Uma mulher faixa-preta tipicamente não se expõe a riscos desnecessários - não estaciona em lugares escuros, está sempre atenta a alguém que possa a estar seguindo, nunca deixa sua porta destrancada, procura saber quem está na porta antes de abrir, não desce do ônibus no meio do nada, garante que o ambiente em que ela está seja seguro.” (Patricia Petersen).

Como dica deixo também o link para o blog de Lila Serzedello sensei:

https://lilaserzedello.wordpress.com/

Tomara que um dia esse cenário mude.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Desmistificando o aikidô - Parte 2

Recentemente fui convidado para ministrar um workshop na faculdade Estácio/CEUT em Teresina(Piauí/Brasil).  Dentre os temas solicitados me foi pedido para falar sobre a filosofia do aikidô.

Sempre considerei a filosofia a arte de quem não sabe fazer nada. A habilidade de sobreviver sem ter nenhuma habilidade. Coisa de vagabundo. Até começar a pesquisar sobre o assunto como preparação para o evento. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que minha vida sempre foi pautada pela filosofia e que eu mesmo sou esse vagabundo. Foi pela filosofia que decidi pelo aikidô e até a minha profissão.

Quando comecei a praticar, lá em 1992, havia uma pergunta na ficha de inscrição da academia sobre o motivo da minha inscrição. Por que eu queria fazer aikidô? Essa pergunta me perseguiu e sempre me incomodou. Não respondi. O estoicismo tem a resposta. Platão também em seu mito da caverna. Ou não.

Na verdade talvez essa seja a grande pergunta: por que treinar aikidô?(veja meu artigo anterior) por que treinar uma arte marcial?

A filosofia propõe uma profunda reflexão sobre "o que é". Os grandes pensadores, tanto do ocidente quanto do oriente, buscaram elaborar bem essa pergunta. Mas não só num aspecto contemplativo, ficar sentado meditando. Os estoicos(assim como Platão) tinham uma proposta prática. A filosofia deve ser aplicada na vida, no seu dia a dia. E para isso criaram os exercícios espirituais(Pierre Hadot). O estoicismo define a filosofia como a arte de viver bem. Uma arte que busca uma profunda conversão na alma e no modo de vida. Alguma semelhança com as mensagens de O'Sensei?

Estes exercícios espirituais, que não estão necessariamente associados à religião(ainda que a igreja católica tenha bebido dessa fonte), se referem à prática diária dos princípios da filosofia: o fortalecimento do corpo e consequentemente da alma, a disciplina, a visualização do negativo, a paciência e o foco no momento presente, respeito próprio e pelos outros e controle sobre suas emoções. E o aikidô pode ser a ferramenta perfeita para executar estes exercícios. Alguns desses aspectos eu já havia escrito quando falei das diversidades, da desmistificação do aikido em outro texto ou na tradução de sobre o que é um bom dojo.

Baseado no que disse Platão, a arte marcial não deveria servir apenas para o desenvolvimento de habilidades físicas, mas na transformação do praticante em uma pessoa melhor para a sociedade. Ao adquirir essas virtudes, e você irá adquiri-las seja de forma consciente ou não, em maior ou menor grau, você torna-se essa pessoa. Por isso, toda vez que você entrar no dojo lembra-te que aquilo que você irá fazer é uma lição de vida. Ainda que inicialmente sejam apenas sombras, liberte-se e vá em busca da fonte, busque a luz que gera essas sombras. Aí você se tornará um bom lutador, um bom artista marcial, um bom budoca, uma boa pessoa. Aí todo o seu treino e dedicação terão valido a pena.